quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Sobre "A Vida de David Gale"

Uma vez fiz uma analise sobre o filme "A vida de David Gale" sob a perspectiva de Sartre para a pós graduação e ficou legal. Então estou partilhando com vcs.



A Vida de David Gale
(Um filme de Allan Parker)

Por: Cynthia L

Personagens Principais: David Gale, Bitsey Bloom e Constance Horraway.


Sinopse do filme:

O crime é evidente. A verdade não.

David Gale é um brilhante professor de filosofia. Tem livros publicados, é respeitado e extremamente inteligente... Ele é acusado de ter estuprado e assassinado uma colega de trabalho e ex-aluna. Às vésperas da sua morte, David pede a presença da repórter Bitsey Bloom para que lhe conceda uma entrevista exclusiva, onde finalmente contaria toda a verdade sobre o caso. Trata-se de uma história inacreditável e fantástica, envolvendo alcoolismo, a mulher que o abandonou, a melhor amiga e confidente que está morrendo de leucemia, um advogado incompetente e um governador que adoraria eletrocutá-lo.

Quanto mais Bitsey ouve a história de David, mais ela fica estarrecida. Porém faltam apenas quatro dias para a execução do prisioneiro e talvez a jornalista não tenha tempo de fazer nada para inocentá-lo.


Resumo: Neste trabalho tomamos o filme A Vida de David Gale como guia para abordar a teoria filosófica de Jean Paul Sartre, observando alguns pontos da teoria sartriana como: Projeto, morte, liberdade, a relação do ser e possivelmente outros temas que estejam representados nas cenas e diálogos do filme.

A priori foram selecionados cinco diálogos que chamaram a atenção, e que representam pontos a serem refletidos pelo ser humano desejante de conhecer e compreender a essência da sua existência e da sua liberdade como para-si , frente às solicitações do mundo.

David: Por onde começamos?

Bitsey: Você começa me dizendo o que estou fazendo aqui?

David: Ninguém que olha através do vidro vê uma pessoa. Vê um crime. Eu não sou David Gale. Sou um assassino e estuprador a quatro dias de sua execução. Você está aqui porque quero ser lembrado tanto pelo rumo que dei a minha vida e pelas decisões que tomei, como pela forma que minha vida chegou ao fim.

A mescla entre a arte do cinema e a psicologia, hoje, pode ser vista nas mais diversas obras cinematográficas que fazem com que ficção e realidade se entrelacem como forma de fazer o público pensar, sobre suas aspirações frente sua própria existência e a existência do outro. Como afirma Izhaki, em ambas criam-se concepções sobre a vida. (p.47)

A vida de David Gale apresenta, de forma inteligente, pela ficção um tema extremamente delicado e discutido em todas as sociedades. Possibilitando de formas sutis novas formas de se pensar em temas polêmicos, no caso a pena de morte.

Para tanto, bastou um desafio do governador, favorável a pena de morte, ao personagem principal do filme, David Gale, ativista contrario a questão, para que se criasse na mente do filósofo, uma trama, intrigante e surpreendente, com a meta de por em prática o objetivo do projeto original de David: fazer com que o mundo pense na questão abordada pelo filme. Como fala Constance ao preparar David para uma entrevista na TV junto ao governador:

...os mortos não servem como prova e os quase mártires não contam.

Podemos afirmar então, que uma das premissas de David, foi acreditar que se não houver obstáculos e resistências, não haveria necessidade de ação. Pensamos então desta ser uma das possibilidades surgidas para que o trio executasse a ação. Aqui consideramos a questão da liberdade que Sartre aborda, exemplificada na fala de Perdigão: “Ser livre é fazer escolhas concretas. E até mesmo a abstenção e a inatividade são modalidades de escolha” (p.87). Quando David, Constance e o cowboy decidem pela trama do filme, esta escolha se mostra livre, por parte dos três, pois está determinada a se querer por si mesma. A liberdade está no sofrer as adversidades e as pressões do mundo, pois a liberdade faz-se no esforço despendido para realizar no mundo o nosso projeto , e a única forma de realizar este projeto é pela ação.

O personagem David Gale, constrói sua vida de forma consistente e pacata. Têm mulher e filho, um emprego estável e convicções concretas. Estas convicções, regidas por seus valores e moral ou não, pode nos fazer acreditar que formam os pilares para a construção de seu projeto, ele quer superar uma situação atual visando algo que ainda não existe, um ideal que o homem não projetou. Talvez por isso o engajamento de David e dos outros membros a ONG Deathwatch. Porém pensasse que suas aspirações em prol de olhar o ser humano na sua essência sem classificá-lo por normas, rótulos ou nosografias, mostram-se de forma bem interessante a partir da Filosofia, profissão de David, e representada através da fala do professor Gale em uma aula na universidade.

Entendam a idéia de Lacan: as fantasias têm de ser irreais porque no momento, no segundo que consegue o que quer não quer, não pode querer mais. Para poder continuar a existir o desejo tem de ter os objetos eternamente ausentes. Vocês não querem “algo”. O desejo apóia fantasias desvairadas. Foi essa a idéia de Pascal ao dizer que somos realmente felizes, quando sonhamos acordados com a felicidade futura. Daí o ditado: “O melhor da festa é esperar por ela” ou “Cuidado com seus desejos”. Não pelo fato de conseguir o que quer, mas pelo fato de não querer mais depois de conseguir. Então a lição de Lacan é: Viver de desejos não traz felicidade. O verdadeiro significado do ser humano é lutar por viver por idéias e ideais. E não medir a vida pelo que obtiveram em termos de desejo, mas pelos momentos de integridade, compaixão, racionalidade e até mesmo sacrifício. Porque no final a única forma de medir o significado de nossas vidas é valorizando a vida dos outros.

Ao planejar sua ação e atingir seu objetivo, o sacrifício próprio em nome de uma causa para fazer as pessoas pensarem no tema da pena de morte, David coloca em prática, a partir desta fala, todas as suas crenças e valores, ou seja, colocava a mostra sua própria essência. Pois os valores dependem da liberdade e do compromisso que cada homem assume com suas decisões. Ao fazer uma escolha do que quer ser, o faz segundo seus juízos e valores. Escolhendo, busca apresentar o modo como todos deveriam ser, escolhe-se o universal e implica seus atos a toda humanidade. A responsabilidade individual envolve todas as pessoas.

Mas que para seu projeto tivesse sucesso, ele deveria escolher alguém que de forma bem pessoal tivesse as mesmas convicções. Bitsey Bloom tinha estas convicções e olhava os sujeito a partir da sua essência, daí a sua fama de proteger todos até mesmo, assassinos, estupradores e pedófilos.

Mas o que eles (David, Constance e o cowboy) poderiam fazer para que Bitsey fosse exatamente pelo caminho que eles haviam planejado? A arte da sedução e articulação pela palavra talvez tenha feito Bitsey atender ao chamado dos personagens. Para isto, David Gale precisou ser bastante manipulador, sendo assim ele levou Bitsey onde ele queria: usa-la para contar sua história e fazer da sua morte algo que perpetuou o significado da sua luta ativista.

Sartre considera a morte um possível não escolhido, afirmando que esta contraria todo o projeto, não abrindo novos possíveis, mas destruindo todos os projetos futuros. Porém no projeto de David, a morte, tornou-se uma escolha, afinal para provar seu ponto de vista, sua execução fez-se necessária.

É possível que a ação de David Gale tenha surgido a partir do calar-se frente a argumentação do Governador. Porém perder a vida por escolha só poderia ser por motivos muito íntimos e singulares para cada um envolvido na cena do crime, como por exemplo, Constance aceitar para não sofrer com a leucemia e a solidão que era sua vida.

Bitsey: ... de qualquer forma não há uma só verdade, só pontos de vista.

Como filosofo, David devia acreditar nas afirmações de Heidegger e Sartre sobre a morte quando dizem, que é a única escolha que não podemos fazer, e a única certeza que temos é a certeza de que morreremos. Ou seja, contra a morte não há como lutar. Sendo assim ele termina dizendo algo que confirma seu projeto e objetivos, para que Bitsey compreenda que seu objetivo ali não é o de salva-lo, mas o de contar esta história.

David: Você não está aqui para me salvar. Esta aqui para limpar minha memória perante meu filho. É que eu quero.

Bitsey: Você vai deixar que matem você?

David: Bitsey passamos a vida tentando deter a morte. Comendo, inventando, amando, rezando, matando. Mas o que realmente sabemos sobre a morte? Já que não tem volta. Mas chega uma hora na vida, um momento em que a mente subsiste os desejos às obsessões. Quando os hábitos sobrevivem aos sonhos, e quando os fracassos... Talvez a morte seja uma dádiva, quem sabe?
Só sei que amanhã há esta hora eu estarei morto. Eu posso dizer quando, mas não sei dizer o porquê.



 PERDIGÃO, P. Existência e liberdade: uma introdução a filosofia de Sartre . Porto Alegre: L & P, 1995.
 IZHAKI, F. Amarelo Manga: pudor e perversão. Revista: Caderno de estudos e pesquisa/ ano VII/ n° 18/ ISSN 1517-5758.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Só um comentário...

"A nós seres humanos, as vezes, é bom ficar no escuro. Porque no escuro podemos sentir medo, mas também há esperança." (Meredith Grey em Greys Anatomy - 2º Temporada episódio 06)

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